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À espera da revolução biológica
 
A escritora e blogueira cubana Yoani Sánchez apresenta seu dia-a-dia na ilha de Fidel no livro "De Cuba, com carinho" e diz que a revolução agora é "biológica, não mais ideológica"
 
Eduardo Fonseca
 
 
Uma compilação com cerca de cem posts da blogueira cubana Yoani Sánchez acaba de ser lançada no livro "De Cuba, com carinho", publicada pela Editora Contexto. Redigidos em 2008, os textos expõem uma situação que vai além da visão pró ou contra daquilo que se convencionou chamar de "La Revolución". Pois a fala independente de Yoani, da mesma forma que dribla a censura cubana pela internet, mediante o blog Generación Y, é amplificada, numa espécie de fetiche heróico, pelo fato singular de ela ser uma voz ativa dentro de uma sociedade reprimida. 
 
Com milhões de leitores pelo mundo, ela ganha uma visibilidade que a resguarda da censura. "Cada pessoa que me lê, me protege", comenta em entrevista à Cult. Mas, se o governo pensa duas vezes antes de tirar seu blog do ar, devido à repercussão negativa que esse ato poderia ter, sua voz também serve de bandeira a setores da imprensa no mínimo suspeitos quanto à parcialidade, como a Time Magazine, que no ano passado a apontou como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo, na categoria Heróis e Pioneiros. Trata-se de um prêmio concedido por um dos maiores conglomerados de comunicação que cresceu lado-a-lado com a política expansionista dos EUA, país que, em contradição ao seu discurso liberal e democrático, não pensou duas vezes ao patrocinar ele próprio diversos regimes totalitários.
 

A escritora cubana Yoani Sanchéz:
"Não quero que meu país faça parte dessas democracias imperfeitas.
Não podemos desistir de ter uma sociedade mais justa"
 
Mesmo antes de lermos o livro, temos, portanto, uma série de fatores que chamam atenção ao trabalho de Yoani, independente de sua qualidade literária. Alheia a esse jogo de interesses, encontramos, por outro lado, uma mulher simples, cheia de opinião, casada, de 30 e poucos anos, formada em filologia, e que ganha a vida como guia turística, professora de línguas, além de ser mundialmente famosa por escrever impressões sobre o seu dia-a-dia.
 
Um dia-a-dia que seria particular e restrito, caso não estivesse sendo vivido em uma ilha que hoje abarca em seu pequeno território os resquícios de um conflito que, para muitos, parece esquizofrênico e nutrido por egos inflados. É por isso que ela afirma não ter posição política: "Não sou nem situação nem oposição" diz de maneira firme e decidida. O seu discurso é a favor de uma liberdade civil que, assim espera, uma vez concedida, dará vazão a uma Cuba diferente e dinâmica, longe de uma situação em que, segundo observa, "os demônios são alimentados pela apatia e pela indiferença". Para Yoani, "carregar essa máscara é muito difícil". Esse mesmo estado de letargia faz com que, hoje, 80% dos produtos consumidos na ilha sejam produzidos fora de seu território. Até açúcar, um produto que já levou Cuba à liderança no ranking mundial, tem que ser importada. "A falta de liberdade para se expressar deixa todo mundo desanimado. Estamos alimentando uma situação maléfica que está nos levando à ruína", lamenta.
 
Revolução biológica
 
O que Yoani relata precisamente em seus textos são as situações que levam a esse desânimo, como o racionamento de praticamente tudo e o acesso a praticamente nada. Ela se vê como porta-voz da sociedade civil cubana que já não aguarda uma nova revolução ideológica, mas, sim, "uma revolução biológica" - um tempo que virá depois da morte daqueles que há décadas se denominam, segundo afirma, os "donos da verdade". Os mesmos que "não abrem mão de suas mansões com piscinas, suas Mercedes e viagens internacionais, enquanto o povo não vê a menor prosperidade".
 
Impedida de viajar ao Brasil para divulgar o seu livro, a escritora ainda acredita num futuro melhor, embora esse futuro ainda não esteja em vigor. Pois apesar das reformas de Raul Castro, estas, do seu ponto de vista, são insuficientes. "Raul tenta recuperar a economia, mas sua visão ainda é militarista, vertical. O problema é que tem muita gente preparada em Cuba que pode sugerir uma segunda via, mas todos têm medo de se expressar com receio de serem acusados de subversivos. Esperemos então a morte dessa geração, algo que não deve demorar mais do que cinco anos".
 
Esse fardo que Cuba carrega, cuja origem se encontra numa revolução popular que ao longo do tempo se transformou num Estado atípico, talvez ainda seja uma salvação para a ilha, uma vez que os regimes capitalistas tampouco seduzem a escritora. "Não quero que meu país faça parte dessas democracias imperfeitas. Não podemos desistir de ter uma sociedade mais justa. Acredito que temos a capacidade de fazer uma sociedade sui generis".
 
E a solução para um novo país possui raízes na liberdade de expressão. Entretanto, a contradição parece ser própria dessa ilha caribenha, pois até mesmo o embargo econômico dos EUA, cuja função seria minar o regime de Fidel, se manifesta por uma lógica inversa. "Não estou de acordo com o embargo, mas pior do que as privações que ele nos traz, é a sua função de ser uma desculpa perfeita para a perpetuação do nosso governo", conclui de maneira indignada a aislada escritora.
 
 
Confira o blog da escritora (com tradução para português)
http://www.desdecuba.com/generaciony_pt/
 
 
       
   
De Cuba, com carinho
Yoani Sánchez
Editora Contexto
208 páginas
R$ 29,90
   
   
 

 
 
COMENTÁRIOS (3) ENVIE SEU COMENTÁRIO
14/10/2009 18:14:12   agora preciso o livro e vou ter que encomendar por Viviane
13/10/2009 18:41:37   Muito bem. Parabéns,Eduardo Fonseca. Claudio Veiga de Souza
 

 
Edição 141
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